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Deixem-me ser infeliz em paz

14-07-2023
A ideia de que existe uma «ditadura» e um «mercado» da felicidade não é nova, mas vale a pena insistir nela. Por detrás de uma indústria multimilionária que trata todos os indivíduos como folhas em branco, onde se confundem os mais relevantes conceitos intersubjetivos – o que é o bom e o bem, de uma perspetiva comunitária – há quem vislumbre um problema mais grave: um projeto totalitarista, preconceituoso e hostil.

O livro de Eva Illouz e Edgar Cabanas (Temas e Debates, 2019) mostrou, com argumentos fortes, que existe uma indústria multimilionária da felicidade, ancorada no pressuposto de que é possível e desejável transformar todas as pessoas em indivíduos capazes de dominarem os seus sentimentos negativos, os seus pensamentos derrotistas e as suas tendências improdutivas.

O «coach mental» e a «psicologia positiva» escondem, nos seus floreados populistas e vazios de ciência e racionalidade, a perigosa ideia de que cada pessoa é um átomo autoinventado; uma potência ecuménica capaz de se transformar no que quer que seja. Em síntese, um indivíduo sem história, sem cultura, sem comunidade. Sem contexto socioeconómico. E também sem genes, sem neurónios e sem hormonas…

Estar sempre bem e ser sempre capaz. Uma ideologia tirana e paradoxal, que responsabiliza todos e cada um pela sua própria infelicidade emocional, laboral ou estética. E claro que a felicidade aparece sempre conexionada com um suposto standard de saúde mental, sem o qual o engodo não pega. Felicidade e saúde plenas, eis o par perfeito. E totalitário.

Entre nós, Manuel Curado (2020) denunciou este mesmo projeto totalitário a propósito da caracterização da saúde como um "estado de completo bem-estar físico, mental e social", promovido pela Organização Mundial de Saúde. Steven Pinker andou antes pela negaça do bem-estar, em 2002, ao discutir o paradigma da tábua rasa (e, de passagem, como os moralismos são cíclicos – ontem sem álcool, hoje sem tabaco, amanhã sem inteligência artificial, quiçá…) e a diretora do Jornal de Notícias, Inês Cardoso, usou mesmo a expressão «ditadura sanitária» para falar do controlo estadual sobre os nossos hábitos infelizes.

Temos mesmo a obrigação de ser felizes e saudáveis? E alegres, também?

Tristeza e infelicidade talvez não sejam a mesma coisa, analiticamente. Mas a questão não é essa. A questão é que a dor é sempre a dor de alguém. E não há, suponho, nada de errado em tentar ser feliz – eu até gostei bastante d´O Livro do Hygge (Meik Wiking, 2017), essencialmente porque gosto muito de velas aromáticas e chocolate quente. Mas, sejamos sérios. Porque o problema não é tão superficial que não valha a pena inquietarmo-nos, a sério, com ele:

Afinal, que papel tem a infelicidade na construção da nossa personalidade? E na construção dos nossos padrões morais de conduta? E nas manifestações relacionais, estéticas e artísticas do «eu»?

"Is Unhappiness Morally More Important Than Happiness?", de James Griffin (in The Philosophical Quarterly vol. 29, No. 114, 1979, pp. 47-55), dá umas luzes para começar.

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